O Rosto da Mobilidade: A Alma do Areinho na Espinha da 5 de Outubro
1. Introdução: A Cartografia Humana
Quando somos chamados a refletir sobre a "Mobilidade", a
tendência imediata é levar o nosso pensamento para a abertura de mapas,
analisar gráficos de tráfego e projetar infraestruturas. Pensamos em rotundas,
semáforos, vias rápidas e horários de transportes. Contudo, a mobilidade não se
circunscreve apenas ao ato físico da deslocação, ela é muito mais que isso, é
forma como uma comunidade se liga a si mesma, ao seu território e ao mundo
exterior que a rodeia. A mobilidade é o sangue a correr nas veias de uma terra.
Para refletirmos sobre a verdadeira dimensão da mobilidade em Avintes,
proponho que não olhemos para a frieza de um mapa topográfico, mas sim para a
complexidade de um rosto humano.
Num rosto que (como muitos outros) sente o peso e a responsabilidade de
pensar esta Freguesia. Um rosto onde habitam duas forças viscerais, dois perfis
distintos que se cruzam na estrada da nossa vida coletiva: a identidade da
Avintense (o lado do passado e do afeto) e o pragmatismo da Autarca (o lado presente,
e da gestão do futuro).
2. O Perfil Esquerdo: A Memória e o Rio
Se olharmos para Avintes através do prisma da memória — o perfil do coração —, encontramos uma definição de mobilidade muito distinta da atual. Deste lado, respira, vive e sente a Avintense.
No passado, a mobilidade da nossa Freguesia era ditada, sobretudo, pela
geografia e pelo esforço físico humano, não por motores de combustão. O nosso
grande eixo viário não era de alcatrão, mas sim de água. A nossa grande via era
o rio. A mobilidade seguia o ritmo dos barcos rabelos no Rio Douro e o cheiro a
lenha e farinha da broa que transportavam. Em terra, ir ao Areinho não era uma
questão de logística ou de estacionamento; era uma espécie de peregrinação de
domingo, um estender da toalha à sombra onde o tempo parava no longo período
das férias escolares no Verão.
A Avintense sabe que essa mobilidade antiga era dura para as pernas, mas
tinha rosto e era imensamente humana e reconfortante para a alma. A pressa não
existia. Existia a pertença e a presença. As nossas vielas estreitas obrigavam
a uma "mobilidade de proximidade", onde as pessoas não eram apenas um
número numa estatística de tráfego. A lentidão dos nossos passos permitia-nos o
cumprimento direto, conhecíamos o rosto de todos os que se cruzavam connosco. Éramos
vizinhos, amigos e família.
Este perfil deve lembrar-nos que a mobilidade tem de servir a escala
humana, e este planeamento não pode esquecer o prazer de se usufruir e
contemplar a nossa Terra, sem o ruído constante dos motores.
3. O Perfil Direito: A Urgência e o Asfalto
Mas, o mundo acelerou.
A realidade impõe-se e sabemos que não podemos viver apenas da nostalgia
da brisa do rio. Virando o rosto para o outro perfil, encontramos a Autarca.
Este é o lado de quem tem de encarar de frente, entre outros, o caos da Estrada
Nacional 222.
Deste lado, a poesia dá lugar à urgência. Sentimos as longas filas, o
sufoco ambiental e a impaciência de quem quer chegar a casa, à escola ou ao
trabalho, mas vê o tempo subtraído à família, ao descanso e à cultura, suspenso
naquela imensa reta. A Autarca sabe que Avintes precisa de soluções que não
cabem num barco rabelo. Temos de pensar em autocarros que cumpram horários, em
rotundas que funcionem, na descarbonização do território e em desatar os nós
que impedem a nossa Vila de evoluir e as Pessoas de fluírem.
Este lado exige respostas técnicas, exige orçamentos, exige rapidez,
exige soluções para um futuro que não espera por nós mas o qual ansiamos muito atender.
O futuro demanda eficiência e sustentabilidade e a mobilidade é atualmente o
motor económico para a competitividade entre territórios.
4. A Artéria Ferida: A Rua 5 de Outubro
Como reconciliar, então, a poesia do Areinho com a pressão avassaladora da EN222?
A resposta deveria estar no nosso ponto de equilíbrio geográfico, naquela
que é a nossa espinha dorsal: a Rua 5 de Outubro.
Mas, para pensarmos o futuro com seriedade, temos de ter a coragem de
olhar para o presente com honestidade.
Hoje, a Rua 5 de Outubro não é um exemplo de harmonia; é um grito ensurdecedor
de socorro. Esta via, que deveria ser a sala de visitas de Avintes, da nossa
identidade intrínseca, está exausta. O seu pavimento vai cedendo aos poucos,
ferido pelo peso de um trânsito manifestamente intenso que a sua estrutura centenária
e nobre parece já não suportar.
Não são apenas as pedras que sofrem; são os vidros das casas que vibram à
passagem dos veículos pesados e o sono de quem ali vive que é interrompido pela
trepidação constante que o silêncio da noite não cala. A mobilidade moderna não
pode ser o sacrifício do descanso de uns para a pressa em chegar de outros.
Onde deveria haver o passo calmo dos avintenses e a fluidez do comércio
tradicional, há hoje vibração, degradação e a velocidade de quem usa Avintes muitas
vezes apenas como atalho.
A Rua 5 de Outubro é a prova física de que a mobilidade mal gerida deixa
marcas profundas e cicatrizes que não se conseguem disfarçar. Ela
"sangra" porque tentámos forçar a mobilidade contemporânea num corpo
antigo sem o devido cuidado. Recuperar esta rua não se pode cingir apenas a uma
obra de engenharia para tapar buracos, ou assentar tampas; é imprescindível
pensar-se numa obra de resgate da nossa
alma comunitária, da nossa dignidade.
5. A Mobilidade de Carácter: O Motor do Interesse
Se os buracos no asfalto se poderão resolver com obra e bom alcatrão, há um outro tipo de problema de mobilidade em Avintes que também exige uma reflexão profunda: a mobilidade cívica ou de carácter.
O desgaste da Rua 5 de Outubro encontra um triste paralelo num certo
"imobilismo" crónico de alguns setores da nossa sociedade. Refiro-me
àqueles que circulam pela via pública e comunitária em contramão com a verdade -
os cidadãos que sofrem de uma "mobilidade seletiva".
Todos conhecemos esses perfis.
Há quem confunda “servir a terra” com “servir-se da luz da terra”. São os
perfis que só aparecem para a fotografia de inauguração, com o sorriso bem
ensaiado, mas que desaparecem quando o filtro da câmara não consegue esconder o
pó e o suor do trabalho real. São aqueles que se apresentam constantemente como
os "mártires da estrada", queixando-se em voz alta do quanto sofrem
por Avintes e do quanto se sacrificam pelo bem de todos.
No entanto, quando analisamos a linguagem desta mecânica, percebemos que
são “vítimas” com o taxímetro ligado. Só engrenam o motor e iniciam a marcha do
veículo se o destino final for o pódio, o aplauso fácil ou o proveito pessoal.
Se a estrada for plana, iluminada pelos holofotes e der direito a fotografia,
vemos grandes velocidades. Mas, se o caminho exigir sacrifício real, trabalho
anónimo ou de “segunda linha” e implicar sujar as mãos para consertar a
"nossa rua" sem ninguém a ver, o motor destes grandes condutores
gripa subitamente. Ficam na berma. Mais ainda, ficam na berma a buzinar e a
romper o piso a quem está, de facto, a trabalhar.
Esta atitude não é amor à Terra; é manifesto transporte privado de
interesses. E a verdadeira mobilidade de Avintes não se pode comover, nem
demorar, com quem só quer conduzir o "carro vassoura" para recolher
os louros no fim da corrida.
6. Conclusão: O Movimento que nos Une
O 36.º Fórum Avintense pede-nos também que projetemos o futuro. Esse futuro não se constrói apenas com cimento, exige que saibamos unir a eficiência pragmática da Autarca ao coração identitário da Avintense.
Que o futuro nos traga o respeito e a preservação do silêncio do Areinho.
Que nos traga a inteligência estrutural para resolver os nós da EN222. Que nos
traga a coragem e a capacidade de curar as feridas da nossa Rua 5 de Outubro.
Mas, acima de tudo, que nos traga uma verdadeira mobilidade de carácter.
Avintes precisa de cidadãos dispostos a tapar os buracos do nosso caminho
coletivo e não de "passageiros" que só querem boleia para o sucesso.
Movamo-nos por verdadeira convicção e pelo bem comum. Pelo progresso que não
esquece as raízes mas que as fortalece, sempre ligados, próximos e em movimento
conjunto.
Avintes não pode, nem vai parar!
Avintes tem de continuar com a tração certa e as mãos limpas de qualquer vaidade.
A nossa Freguesia precisa de todos nós ao volante do civismo.
Avintes precisa de verdadeiros construtores de caminhos. Vamos a isso?
Comunicação apresentada no 36.º Fórum Avintense sob o Tema: A Mobilidade: presente, passado e futuro
2026